Dezembro é tarde: sobre o tempo do desejo e o tempo do colágeno.
Em dezembro, a agenda enche de pedidos com prazo de festa. É o mês em que mais digo não — e o mês em que esse não é mais cuidado.
Toda primeira semana de dezembro o meu telefone muda de som. As mensagens chegam com data: "tenho o casamento da minha irmã dia 20", "preciso estar boa no réveillon", "dá tempo até o Natal?". Quase sempre a mesma pergunta, com ansiedade diferente, e quase sempre a mesma resposta minha, que ninguém quer ouvir.
Não dá tempo. Não do jeito que a pessoa imagina, e não sem custo.
O relógio que ninguém vê
O desejo trabalha em dias. O rosto trabalha em semanas. O ácido hialurônico assenta e o inchaço baixa ao longo de duas a quatro semanas; a toxina leva de uma a duas semanas para mostrar o efeito inteiro; o colágeno que um bioestimulador convida o corpo a fazer pede de dois a três meses para aparecer. Nada disso acelera porque o calendário apertou.
Quem chega em dezembro pede um resultado que a biologia só entrega em março. E o que sobra, quando se força o prazo, é a única coisa que se consegue apressar: a quantidade. Mais produto, em mais lugares, numa sessão só, para "garantir". É assim que nasce o rosto que parece feito para uma foto e não para uma vida.
O desejo tem pressa. O colágeno não. E entre os dois, quem paga a diferença é o rosto.
O não de dezembro
Já escrevi sobre os casos em que digo não. Dezembro é o mês em que mais o exerço, e o que mais me custa. A agenda cheia seria fácil de preencher. Bastaria dizer sim, encaixar, aplicar. Mas um sim dado contra o tempo do rosto é um sim que a paciente vai olhar no espelho durante meses.
Então eu explico. Digo o que ainda cabe: um cuidado de manutenção, uma toxina bem calibrada, uma conversa. E digo o que não cabe, sem enfeitar. Muita gente sai com uma data marcada para janeiro, e algumas dizem, um pouco frustradas, que gostariam de ter ligado antes. É exatamente isso.
Há ainda uma razão que pouca gente considera. Dezembro é o mês em que todas as clínicas sérias ficam apertadas, e um plano feito às pressas tem menos espaço para o retorno. O retorno é onde se ajusta o que a primeira sessão só sugeriu. Sem ele, o resultado fica pela metade, e a paciente carrega a dúvida sozinha durante as festas.
Por isso, quando alguém me pergunta qual é o melhor momento para começar, a resposta é sempre a mesma: quando ainda sobra tempo para errar pouco. Setembro sobra. Dezembro, quase nunca.
Escrevo este texto em setembro de propósito. Setembro é o mês em que dezembro ainda é longe o suficiente para ser generoso. Dá tempo de uma avaliação sem pressa, de um plano em etapas, de um retorno de noventa dias que a harmonização facial bem conduzida pede, e de chegar ao fim do ano com o rosto descansado, sem ter sido apressado. Já falei de como a pressa é uma forma de atraso; aqui ela só aparece com laço de fita.
Recebo pacientes de Florianópolis, de São José, de Itajaí, de Blumenau, e todas as que começaram cedo chegaram a dezembro com a pergunta mais leve que existe: "e agora, o que eu faço com todo esse tempo livre?". Nada. Só aproveitar.
Se você está lendo isto e ainda é setembro, o convite é simples. Comece agora, com calma, e deixe dezembro para as festas.
